Marcio Emmanuel Moreira Alves
nasceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, no dia 14 de julho de 1936, filho de Marcio de Mello Franco Alves, que foi prefeito de Petrópolis (RJ) e secretário de Finanças do estado da Guanabara no governo de Negrão de Lima (1965-1971), e de Branca de Mello Franco Alves, influente personalidade no meio católico, que foi membro da Pontifícia Comissão do Apostolado Leigo do Vaticano e coordenadora do Movimento de Ação Católica dos Meios Independentes. Seu avô paterno, Honorato José Alves, foi deputado federal por Minas Gerais de 1906 a 1929.

Os Mello Franco, parentes de seu pai pelo lado materno, são uma tradicional família de
políticos e intelectuais mineiros.

A tradição política estende-se ao lado materno visto que descende de políticos oriundos do Vale do Paraíba e radicados em Petrópolis. Seu avô materno, Leopoldo Nóbrega Moreira, brilhante oficial de marinha, adido naval em Londres e Paris, foi ajudante de ordens do presidente Epitácio Pessoa, durante todo seu governo. O pai deste, Joaquim Moreira, portanto bisavô do Marcio, médico de profissão, foi prefeito de Petrópolis e Senador pelo Rio de Janeiro.

Marcio Moreira Alves realizou os estudos primários no Colégio Melo e Sousa e cursou o secundário nos colégios Andrews e Melo e Sousa, ambos no Rio de Janeiro.

Agência O Globo
Marcio em início de carreira
no Correio da Manhã.
Iniciou suas atividades profissionais aos 17 anos
como repórter do Correio da Manhã, jornal do Rio
de Janeiro. Em 1956 foi correspondente de guerra
do jornal durante o conflito anglo-egípcio, resultante da nacionalização do canal de Suez pelo presidente egípcio Gamal Nasser. Em setembro de 1957, foi enviado pelo mesmo jornal para cobrir a crise política existente no estado de Alagoas, onde a Assembléia Legislativa deveria se reunir para decretar o impeachment do governador Muniz Falcão, acusado do assassinato de um deputado oposicionista. Durante essa sessão, a Assembléia alagoana foi invadida, travando-se um tiroteio entre os deputados, no qual foi baleado. Mesmo ferido conseguiu enviar a matéria (telegrama) ao seu jornal, ganhando, com essa cobertura, o prêmio Esso de reportagem de 1958. 


Em 1958 , ingressou na Faculdade de Direito da atual Universidade Estadual
do Rio de Janeiro (UERJ). Em fevereiro
de 1960 participou da comitiva do
ex-governador paulista Jânio Quadros, então candidato à presidência da República, na visita que fez a Cuba a convite do primeiro ministro Fidel Castro. Foi assessor do ministro Francisco San Tiago Dantas, durante
as gestões deste no Ministério das Relações Exteriores (1961-1962) e no Ministério da Fazenda (1963). Em 1963 bacharelou-se em ciências jurídicas
e sociais.

Em Cuba, com o Ministro da Fazenda Che Guevara, o escritor Rubem Braga
e o ex-governador de São Paulo, Jânio Quadros.

Em Congonhas, Minas Gerais, com a
equipe do Correio da Manhã, seguindo para a cobertura da inauguração de Brasília, em abril de 1960.

Voltou-se contra o regime instituído pelo movimento político-militar de 31 de março de 1964, a partir da edição, ainda em abril, do Ato Institucional nº 1 (AI-1), do qual foi um dos primeiros opositores. No mesmo ano, juntamente com Oto Maria Carpeaux, Edmundo Muniz, Hermano Alves e Carlos Heitor Cony, comandou forte campanha em defesa dos presos políticos, denunciando a prática de torturas em prisões brasileiras.

Como repórter e articulista político
de Correio da Manhã, destacou-se no combate à política econômica e financeira do então ministro do Planejamento, Roberto Campos (1964-1967), a quem acusava de entregar aos estrangeiros
as riquezas do país.

Em novembro de 1966 elegeu-se deputado federal pelo antigo estado da Guanabara na legenda do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Empossado em fevereiro de 1967, destacou-se por sua atuação oposicionista na Câmara ao lado de Hermano Alves, Edgar da Mata Machado, Davi Lerer e outros parlamentares do MDB. Em julho de 1967, teve apreendido seu livro Torturas e Torturados (1967), posteriormente liberado por decisão judicial.

Outro livro de sua autoria, O Cristo do Povo (1967), também chegou a ser apreendido por determinação do ministro da Justiça, Luis Antônio da Gama e Silva (1967-1969), porque “ofendia a dignidade das forças armadas”. No ano seguinte participou da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou a venda de terras brasileiras a estrangeiros. Também apoiou as manifestações estudantis de oposição, que se tornavam cada vez mais intensas em 1968, condenando as medidas repressivas adotadas pelo governo do presidente Artur da Costa e Silva (1967-1969).

Com a intensificação das atividades oposicionistas, especialmente a partir do movimento estudantil e da atuação de membros da Igreja e das forças políticas articuladas na Frente Ampla, o governo passou a reagir com medidas de repressão institucional e policial militar.
No dia 30 de agosto de 1968, a Universidade Federal de Minas Gerais foi fechada, e a Universidade de Brasília (UnB) foi invadida pela Polícia Militar, que espancou diversos estudantes. O fato repercutiu imediatamente no Congresso, e no dia 2 de setembro, em protesto contra a invasão da UnB, Marcio Moreira Alves pronunciou veemente discurso
na Câmara, conclamando o povo a realizar um “boicote ao militarismo”, não participando
dos festejos comemorativos da Independência do Brasil no 7 de setembro próximo.

O pronunciamento de Marcio Moreira Alves foi considerado pelos ministros militares como ofensivo “aos brios e à dignidade das forças armadas”. Diante das reações nos círculos militares, o procurador-geral da República Décio Meireles Miranda, com base no parecer
do ministro da Justiça Luis Antônio da Gama e Silva, deu entrada junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), no dia 12 de outubro, ao pedido de cassação do mandato do deputado emedebista e de seu enquadramento no artigo 151 da Constituição, por “uso abusivo do direito de livre manifestação e pensamento e injúria e difamação das forças armadas, com
a intenção de combater o regime vigente e a ordem democrática instituída pela Constituição”.

Apesar de o presidente Artur da Costa e Silva ter declarado que o governo acataria as decisões dos poderes Judiciário e Legislativo, o pedido de cassação do mandato provocou grand e apreensão na Câmara. No dia 4 de novembro, o STF enviou à Câmara pedido
de licença para processar o deputado, e o pedido foi encaminhado à Comissão de Constituição e Justiça.

No dia 18 de novembro Marcio Moreira Alves apresentou a sua defesa perante esta Comissão. No dia 11 de dezembro, esta mesma Comissão, após a substituição de nove deputados arenistas (da Arena) que haviam se manifestado contrários à violação das imunidades parlamentares, concedeu, com uma diferença de oito votos, licença para processar Marcio Moreira Alves, o que deu motivo para que todos os representantes do MDB na comissão dela se demitissem.

No dia seguinte, porém, contando com o concurso do próprio partido governista, a Aliança Renovadora Nacional (Arena), o pedido foi recusado pelo plenário da Câmara, por uma diferença de 75 votos (216 votos contra e 141 a favor). Nesta ocasião, o deputado Mario Covas, então líder do MDB, pronunciou discurso contrário à licença para processar o deputado Marcio Moreira Alves, demonstrando coragem pessoal e firme resistência ao regime militar. O discurso pronunciado, em 12 de dezembro, por Marcio Moreira Alves, foi publicado em 1998, pela Câmara dos Deputados, como parte da coletânea Grandes Momentos do Parlamento Brasileiro (Vol. II).

No dia 13 de dezembro, o presidente Costa e Silva editou o AI-5, o mais drástico de todos
os atos institucionais desde o movimento político-militar de março de 1964. Relacionado diretamente com o incidente na Câmara – na verdade o discurso de Marcio Moreira Alves
foi apenas um pretexto, já que as medidas trazidas pelo ato eram as mesmas defendidas pelos militares desde julho -, o AI-5 autorizou o presidente da República, independentemente de qualquer apreciação judicial, a decretar o recesso do Congresso Nacional e de outros órgãos legislativos, a intervir nos estados e municípios sem as limitações previstas na Constituição, a cassar mandatos eletivos e suspender, por dez anos, os direitos políticos
de qualquer cidadão, a decretar o confisco de bens de “todos quantos tenham enriquecido ilicitamente” e a suspender a garantia do habeas-corpus. Também no dia 13 de dezembro,
o Ato Constitucional nº 38 (AC-38) decretava o recesso do Congresso Nacional, que se prolongaria até outubro de 1969.

Logo após a edição do AI-5 foram presos diversos jornalistas e políticos que haviam manifestado sua oposição ao governo, dentro ou fora do Congresso, entre eles o ex-presidente Juscelino Kubitschek, o ex-governador Carlos Lacerda e vários deputados federais e estaduais da Arena e do MDB. No dia 30 do mesmo mês foi divulgada a primeira lista de cassações posterior ao AI-5. Onze deputados federais – a lista era encabeçada por Marcio Moreira Alves – tiveram seus mandatos cassados. Ainda em dezembro de 1968, Marcio Moreira Alves deixou clandestinamente o país com destino ao Chile, onde permaneceu até 1971. Durante esse período inicial de exílio percorreu a Venezuela, a Colômbia, o Equador, o Peru, a Argentina, a Bolívia, o México e os Estados Unidos, fazendo conferências em mais de 40 universidades nesses países. Em 1971 seguiu para a França, onde se doutorou pela Fundação Nacional de Ciências Políticas de Paris (www.sciences-po.fr/)

Entre novembro de 1973 e maio de 1974 viveu na cidade de Havana, onde deu aulas na Faculdade de Ciências Políticas e escreveu o livro Trabalhadores na Revolução de Cuba, baseado nos depoimentos dos membros da família com a qual se hospedou durante esta temporada cubana.

Em Havana, em visita realizada em setembro de 2002, com a família
cubana com quem viveu no exílio.

Em abril de 1974 transferiu-se para Lisboa, tornando-se professor do Instituto Superior
de Economia de Lisboa (atual Instituto Superior de Economia e Gestão: www.iseg.utl.pt). Retornou ao Brasil, em setembro de 1979, beneficiado pela Lei da Anistia.

Sebastião Marinho/Agência O Globo
No Aeroporto Internacional do Galeão, em setembro de 1979.

A Lei da Anistia foi promulgada pelo presidente João Figueiredo em 28 de agosto 1979. Com a extinção do bipartidarismo em 29 de novembro e a conseqüente reformulação partidária, filiou-se ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e, nessa legenda, concorreu a uma cadeira na Câmara dos Deputados pelo estado do Rio de Janeiro no pleito de novembro de 1982, obtendo uma suplência.

Em 1996, em Brasília, na comemoração dos
80 anos de Franco Montoro.

Com a eleição de Franco Montoro para o governo do estado de São Paulo, neste mesmo ano de 1982, foi nomeado assessor de Luis Carlos Bresser Pereira na presidência do Banco do Estado de São Paulo (Banespa), função que desempenharia até 1984, quando tornou-se assessor de Bresser Pereira na Secretaria de Governo do estado de São Paulo, permanecendo nesse cargo por dois anos, até 1986.

Em campanha, pelo PMDB, em 1982 (esq.) e 1986.


Em 1986, mais uma vez, candidatou-se a deputado federal pelo PMDB e, apesar da expressiva votação, não obteve sucesso. Durante este período, mais precisamente em 1983, publicou o livro Teotônio, Guerreiro da Paz, sobre a vida e carreira política do senador Teotônio Vilela, com quem manteve estreito relacionamento.

Em 1987, assumiu a subsecretaria para relações internacionais do governo do estado do Rio de Janeiro. Nesse cargo, destacou-se pela mobilização para arrecadação de recursos internacionais destinados a ajudar as vítimas das enchentes que castigaram as cidades do Rio de Janeiro e Petrópolis (região serrana do estado) em fevereiro de 1988.

Em 1990, deixou o governo estadual a fim de montar uma empresa de assessoria para assuntos políticos – a Brain Trust Consultores Associados – em parceria com outros especialistas na área. Ainda em 1990, pediu desligamento do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) com o objetivo de exercer com independência a atividade de assessoria e para reiniciar sua atuação na imprensa, tornando-se colaborador do Jornal do Brasil e de O Estado de São Paulo.

Em agosto de 1993, já colaborador eventual de O Globo propôs à direção do jornal a realização da cobertura, em Brasília, dos trabalhos da revisão constitucional. Proposta aceita, a partir dessa ocasião, tornou-se colaborador permanente e, em seguida, colunista diário do jornal, encarregado de assuntos de política nacional.

Apesar da ampla abrangência temática da coluna, procurou dar um enfoque especial aos temas ligados à formulação e implementação de políticas públicas. Nesta linha, passou a dedicar as colunas dos dias de sábado a projetos de execução bem sucedidos em todos os níveis de governo – municipal, estadual e federal – e em todo o país. Nessa perspectiva de buscar “o Brasil que dá certo” foram publicadas três coletâneas de artigos: Sábados Azuis (1999), Brava Gente Brasileira (2001) e Histórias do Brasil Profundo (2003). A partir de 2003, mais uma vez com o irrestrito apoio da direção de O Globo, retomou a sua vocação inicial de repórter, passando a publicar matérias duas vezes por semana.

Em junho de 2004, acometido por grave problema de saúde, Marcio Moreira Alves veio a falecer no dia 3 de abril de 2009, na cidade do Rio de Janeiro. Clique aqui para ter acesso ao texto de José Gregori, lido ao final da Missa de Sétimo dia, realizada na Igreja do Outeiro da Glória.

Fonte: Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930/
Coordenação: Alzira Alves de Abreu... [et al.]. Ed. rev. e atual. –
Rio de Janeiro: Editora FGV; CPDOC, 2001.

 


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