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Depoimento dado em Lisboa, em 1975,
para inclusão no livro “Memórias do Exílio
– Brasil 1964-19??”, dirigido e coordenado por Pedro
Celso Uchoa Cavalcanti e Jovelino Ramos, e publicado em 1976, em
Lisboa, pela editora Arcádia
Nasci e fui criado no Rio de Janeiro
por engano. Sou muito mais mineiro que carioca, embora só
passasse algumas férias de verão na s Alterosas Montanhas:
mais precisamente em Ouro Preto, onde meu tio Rodrigo, fundador
do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, era uma espécie de vice-rei, sisudo, querido e
odiado. Lá aprendi a beber cachaça, a roubar galinhas,
a fazer serenatas. Catávamos escorpiões debaixo das
pedras calcinadas do extinto arraial do Ouro Podre para vende-los
a cinco mil reis a dúzia ao velho Tófulo, hoteleiro,
taberneiro e agente do Instituto Butantã. Em Ouro Preto uma
dama não identificada, moradora da zona, uma enfiada de casas
que ficava entre a associação acadêmica e a
estação da estrada de ferro, cobrou-me o imposto da
libidinagem: um cancro mole que me deu um febrão e me obrigou
a confessar os pecados a minha austeríssima tia Graciema.
Felizmente o dr. Fleming já entregara as suas descobertas
à humanidade e o episódio foi saneado sem maiores
conseqüências com uma série de injeções.
Não escapei contudo ao castigo de ser segregado do convívio
da casa, de ter as roupas de cama fervidas para evitar o contágio
e de cair sempre no desprezo de minha prima Clarinha, que amava
em segredo, e que por ser dois anos mais velha raramente se dignava
a dirigir-me a palavra.
A família de meu pai era de velha cepa mineira: vinha de
Montes Claros, sertão da fronteira da Bahia, pelo lado do
meu avô Honorato, e de Paracatu, antiga vila de faiscadores
de ouro, pelo lado de minha avó Violeta. O velho Honorato
foi deputado federal 30 anos e o seu eleitorado era garantido pelos
trabucos da jagunçada da sua cunhada, dona Tiburtina, legendária
cangaceira. Afrânio de Melo Franco, irmão da minha
avó Violeta, passou vários lustros na Câmara,
foi ministro várias vezes e continuou com brilho a carreira
do pai senador e dos antepassados políticos. Pelos meus cálculos
é provável que o primeiro parlamento brasileiro a
reunir-se sem um membro da minha família foi o convocado
em 1969, após a cassação do meu mandato.
Minha mãe é do Estado do Rio, descendente de um desbravador
das matas do Rio Preto, plantador de café e pai de 103 filhos
conhecidos, sendo dois legítimos. Esse patriarca estourou
com um enfarte aos 55 anos de idade, ornado de um título
de visconde e da Ordem da Rosa. Deixou 40000 arrobas de café
na tulha, 600 escravos na senzala e dinheiro tão farto que
só acabou três gerações mais tarde.
Mamãe nasceu em Paris, onde o pai era adido naval, e foi
criada por duas tias ricas e solteironas, porque a minha avó
morrera de parto. A infância solitária fez com que
lesse mais que o normal o que, graças à sua memória
fotográfica, lhe permite até hoje surpreender-me com
citações de Lamartine, Chateaubriand e Thackeray,
para não falar de Racine e Shakespeare. Educadas pelas freiras
de Notre Dame de Sion, foi católica praticante a vida inteira
mas, a partir do pontificado de João XXIII, tornou-se uma
militante engajada a tempo integral. Ascendeu rapidamente na hierarquia
da Ação Católica, foi a primeira mulher casada
a integrar um conselho da Cúria Romana e acompanhou bem a
abertura à esquerda de parte do catolicismo brasileiro.
Essa herança de deputados e barões inseriu-me naturalmente
na alta burguesia brasileira, quer era a da antiga Corte, da Capital
Federal, do Rio de Janeiro. Comecei a trabalhar antes dos 18 anos
porque quis, por ânsia de sorver a vida, não por necessidade.
Ao contrário, durante anos meu pai deu-me por mês uma
quantia igual ao meu salário, porque dizia que no início
de uma carreira profissional sempre se é exageradamente explorado
pelo patrão. Entrei no jornalismo pela porta da frente, convidado
pelo dono do Correio da Manhã , na época o maior jornal
do Rio, que se divertira com a resposta que eu dera à pergunta
de uma revista sobre o que os jovens queriam da vida – eu
queria ser o primeiro em Paracatu. Fiz um estágio como repórter
de polícia – quase vomitei quando vi o meu primeiro
cadáver, um malandro esfaqueado em uma briga de morro –
e outro na reportagem geral. Como falava bem inglês –
estudara um ano nos Estados Unidos – e arranhava o francês,
era encarregado de entrevistar visitantes ilustres. Graças
a essas capacidades lingüísticas fui correspondente
de guerra junto às tropas da ONU em Suez, após a retirada
dos invasores franceses, ingleses e israelenses. Fui então
promovido a capitão honorário, três meses após
haver sido considerado inapto para o serviço militar pelo
Exército brasileiro.
A minha formação intelectual foi feita muito mais
no Correio da Manhã que na Faculdade de Direito, por onde
passei distraído com a freqüência estritamente
necessária para receber um canudo ao fim de cinco anos. Aprendi
política internacional entrevistando o general Dayan em Gaza,
o coronel Nasser no Cairo, Leopold Senghor em Dacar, Nukrumah em
Acra e participando dos shows de De Gaulle e Kennedy ofereciam periodicamente
à imprensa. O meu primeiro contato com uma revolução
aconteceu em 1960, à porta do Hotel Riviera, em Havana, quando
os jornalistas que acompanhavam Jânio Quadros conseguiram
cercar Fidel à saída de uma visita protocolar. Ali
mesmo, com um pé apoiado no pára-choque de um imenso
Cadillacs que acabava de nacionalizar, fez-nos um discurso sobre
o futuro de Cuba que durou da meia-noite às quatro da manhã
e só terminou porque estávamos quase desfalecidos
de cansaço.
Política brasileira fui aprendendo aos poucos, ao sabor das
vagabundagens a que era profissionalmente obrigado. Conheci na carne
a dureza da violência horizontal que existe na sociedade brasileira
e que joga em lutas de morte frações da classe dominante
na disputa do aparelho de Estado. Em setembro de 1957 fui mandado
a Alagoas, fazer a reportagem sobre o impeachment de um governador,
acusado de mandar assassinar um deputado da oposição.
Os seus correligionários, em minoria na Assembléia
Legislativa, decidiram ganhar no tiro o que perderiam no voto. Resultado:
fui colhido por uma rajada de metralhadora e passei seis meses a
soldar a coxa partida. Conheci também a frieza do roubo organizado
contra os flagelados pelas secas, ao percorrer o nordeste em 1958.
Fui aos sertões do Maranhão, onde a terra não
tem dono até que cresçam as primeiras colheitas, estive
em tabas de índios às margens do Tocantins, corri
os chapadões dos Campos Gerais e a pampa do Rio Grande. Em
1960 andei o Brasil quase todo, agregado à comitiva de Jânio
Quadros, e palmilhei Minas Gerais quase cidade por cidade, no rastro
da campanha eleitoral de Magalhães Pinto. Enjoei de maionese
para o resto da vida – não havia banquete de homenagem
aos candidatos em que estivesse ausente a maldita pomada amarela
mas gravei perfeitamente a cara da geografia da minha terra.
O conhecimento visual e vivencial do Brasil foi essencial para a
evolução política que sofreria a partir do
golpe de Estado militar de 1964. Enquadrou a visão deformada
que normalmente teria, vivendo no eixo industrial Rio-São
Paulo e sendo um membro mimado da sua classe dominante. Os discursos
altissonantes dos políticos e dos industriais sobre as riquezas
do Brasil não me podiam enganar. Eu vira o país: riquíssimo,
sem dúvida, mas terra de poucos ricos e multidões
de miseráveis. Não era ainda capaz de estabelecer
a relação causa-efeito desses contrastes, de vê-los
como uma conseqüência necessária do nosso capitalismo
dependente e da dominação norte-americana –
isso só conseguiria no exílio, quando tive finalmente
tempo para estudar a sério -, mas revoltava-me instintivamente
contra eles.
A 31 de março de 1964 tinha simpatias pelo golpe militar,
simpatias determinadas pela minha posição de classe
e precária educação política. Julgava
moralisticamente o governo João Goulart. Não percebia
que era derrubado por causa de suas poucas qualidades e não
em conseqüência dos seus múltiplos defeitos. Por
outro lado, a ditadura militar não fazia parte da memória
histórica do Brasil:nunca ocorrera, o que me fazia descrer
da sua possibilidade.
A tortura contra presos políticos encarregou-se de iniciar
o meu aprendizado da realidade brasileira, vista pela banda podre.
Em princípios de abril já começava a escrever
contra a repressão aos sindicatos e à liberdade de
expressão. Em maio encontrei uma primeira vítima da
polícia política e lancei-me em uma longa campanha
contra a tortura. Levou-me ela a penetrar em redes clandestinas,
a entrar incógnito na Penitenciária do Recife, a recolher
cerca de 100 depoimentos de torturados que ajuntei no livro Torturas
e Torturados.
Pouco a pouco fui descobrindo a sistemática da tortura, vendo
que não era uma aberração praticada por elementos
incontrolados da polícia e do Exército mas sim uma
necessidade do regime, ditada pela sua política econômica.
Essa nova visão da repressão obrigou-me a estudar
economia, a estudar a luta de classes, a ver a minha própria
classe e a desligar-me dela. Repudiando a tortura, lutando contra
a sua prática, tornei-me, pela primeira vez, brasileiro.
Em 1966 já se delineavam claramente os limites da minha atuação
no Correio da Manhã e da atuação da imprensa
no contexto geral do sistema político que os norte-americanos
inspiravam à direita militar. O jornal, boicotado pelos grandes
anunciantes e pelo ministro do Planejamento Roberto Campos, principal
intérprete da política norte-americana no Brasil,
estava à beira da falência. A imprensa começava
a ser cerceada por agentes do Serviço Nacional de Informações
e da polícia política. As eleições parlamentares,
que se realizariam em novembro, pareceram-me uma oportunidade única
de continuar a luta que travava na imprensa por outros meios e a
outro nível. Candidatei-me, fui eleito, após vencer
na justiça uma impugnação governamental.
Minha atuação parlamentar foi uma continuação
da ação jornalística: denúncias da repressão,
análises da política pró-americana do governo,
criação de uma comissão de inquérito
sobre a venda de imensas extensões de terra a estrangeiros.
Éramos cerca de 30 deputados a fazer uma oposição
real: todos jovens, todos eleitos pelas grandes cidades, todos pertencentes
aos setores radicalizados da burguesia e da pequena burguesia.
Um de meus discursos, denunciando as brutalidades praticadas por
militares na Universidade de Brasília, serviu de pretexto
ao Ato Institucional nº 5. Acusado de ofender as Forças
Armadas fui processado pela Lei de Segurança Nacional. O
processo só poderia caminhar caso as minhas imunidades parlamentares
fossem suspensas, o que dependia do consentimento da Câmara
dos Deputados. Esse consentimento foi recusado, como era previsível,
de vez que o Parlamento era e sempre havia de ser o campo privilegiado
de ação política das classes dominantes. No
dia seguinte o Congresso era fechado, as últimas garantias
constitucionais dos brasileiros eram abolidas. Começava a
ditadura sem máscara. Para mim iniciava-se um curto período
de clandestinidade e um longo exílio.
Breve roteiro de 6 anos
Chego em território chileno
no dia 31 de dezembro de 1968. A minha primeira noite no exílio
permanente foi a do réveillon chileno.
Meu plano era ficar no Chile de quinze dias a um mês e ir
para a França. Mas chegando
ao Chile verifiquei aquilo que todo brasileiro verifica quando pisa
solo hispano-americano: que não entendia nada de América
espanhola e que era imprescindível, para pensar o Brasil,
conhecer os problemas da gente irmã, dominada pelo mesmo
sistema imperialista. Apesar das diferenças pequenas que
os separam do Brasil somos completamente cortados uns dos outros.
A única vez que havia estado na América espanhola
antes de 1969 foi quando estive em Cuba na caravana de Jânio
Quadros e dois dias na Venezuela nessa mesma ocasião.
O Chile foi então uma abertura de horizontes e pensei, com
a ajuda de um velho amigo, que o Chile não eliminava a possibilidade
de Paris, mas Paris eliminava a possibilidade de América
Latina. Se batesse na Europa dificilmente poderia voltar à
América Latina, sobretudo para ficar por um longo período.
Por isso fiquei um ano e meio no Chile, saindo em junho de 1970,
portanto alguns meses antes da eleição de Allende.
Durante esse período fundamentalmente me concentrei sobre
os problemas da América espanhola e dediquei-me a conhece-la
fisicamente. Em julho de 1969 fui convidado a um Congresso na Finlândia.
Aproveitei a volta e fui pingando.. parei na Venezuela, Colômbia,
Equador, Peru até chegar ao Chile. Em outras ocasiões,
conheci o México, Argentina e Bolívia.
Finalmente, em junho de 1970 vim para Paris com a família
e lá fiquei até junho de 1974, quando vim para Portugal.
Em Paris fiz doutoramento e viajei para Cuba duas vezes.
Primeiro fui a Cuba como membro do júri da Casa de Las Américas
em janeiro de 1973 e depois, de dezembro de 73 a maio de 74, quando
dei um curso na Universidade de Havana ao mesmo tempo que pesquisava
sobre a vida cotidiana dos operários cubanos. Praticamente
voltei de Havana para Portugal. Passei por Paris, fins de maio,
vim a Portugal, arrumei um emprego e em setembro comecei a trabalhar.
O que é um exílio?
Evidentemente o exílio é
uma ruptura com sua terra, no caso com o Brasil, com o tipo de trabalho
lá desenvolvido, com uma realidade formadora de toda uma
vida. Nesse aspecto o exílio é extremamente “cortante”.
Mas é também uma integração. Integração
com a luta do povo brasileiro, pela qual se paga um preço
da ruptura, e integração no conjunto das lutas antiimperialistas
– lutas que no meu caso foram também uma descoberta.
Talvez o que se aprenda com maior profundidade no exílio
é fazer a distinção, entre a dimensão
do tempo histórico e a do tempo individual. Para isso tem
que se exercer a paciência. Ele é mais ainda: é
uma forma de ascetismo interno, pois só sobrevivem no exílio
– produzindo e contribuindo – aqueles que conseguem
se impor uma férrea disciplina de trabalho, um constante
voltar-se para o país que deixaram. Mas voltar-se não
no sentido de se implantar provisoriamente no país em que
se está, mas sim, ao contrário, procurar inserir-se
na realidade onde se trabalha com a idéia de que se está
preparando algo adiante, uma contribuição que terá
a sua continuação no Brasil. Então, na medida
em que se consegue trabalhar fora – participando e se interessando
pela luta do povo com o qual se entra em contato -, vai-se preparando
e aprendendo o que deve ser feito quando se voltar para o Brasil.
Tenho a impressão que essa missão de preparação
permanente para ser aplicada – pois do contrário ela
se torna bacharelesca – é a escola do exílio.
O exílio é muito isso, como uma cadeia, um lugar onde
se aprende. Mas é uma escola perigosa, porque a não
inserção social caso conjugada com o aprendizado teórico
e com a não aplicação do que se aprende tende
a criar tribos de canibais. O não canibalismo foi uma das
intenções que sempre tive durante esses anos. Não
fechar-me num pequeno grupo de brasileiros, que pensam apenas o
Brasil, que lêem apenas sobre o Brasil, que se relacionam
com o meio ambiente apenas de uma forma parasitária, para
trazer coisas, buscar coisas, recursos para isso ou aquilo... enfim,
que vivem sugando da sociedade onde outros companheiros estão
trabalhando e pensam o Brasil dentro de um vazio, ao mesmo tempo
em que se afirmam através de digladiações e
de ataques aos outros grupos de brasileiros que fazem a mesma coisa.
Esse risco de descaminho é o da escola do exílio.
O risco que faz nascer as tribos canibais foi o que tratei de evitar.
É um risco que tem o seu preço também e há
lugares onde se manifesta com mais vigor, como em Paris. Em Portugal
se sente menos esse risco.
Na medida em que existem, num determinado local, grupos de exilados
brasileiros, estruturados como “famílias políticas”,
com um espírito de canibalismo ritual, o recusar-se a pertencer
a uma determinada tribo implica no risco de se isolar, não
só da vida da colônia como também do processo
da esquerda brasileira em geral vivendo no exterior. A experiência
da esquerda no exterior não é suficientemente importante
para dizer que esse isolamento corresponderá obrigatoriamente
a um isolamento do interior. Não, tenho a impressão
que ao longo desses anos pude manter um contato permanente com o
interior do Brasil bastante real... Mas do ponto de vista humano
há alguma coisa que empobrece, porque limita o relacionamento
pessoal. Você passa a escolher o meio, os seus conhecidos
e amigos, entre um pequeno grupo que também não pertence
às tribos canibais e que se torna cada vez mais rarefeito
à medida em que o tempo passa, não só pela
dispersão das pessoas, como também por um progressivo
alheamento das pessoas daquilo que é mais importante para
você, que é o processo brasileiro.
Da ruptura aos novos planos
Tentarei explicar um pouco o que era
o meu trabalho no Brasil. Era um trabalho aberto no plano político
que me fez passar de um liberalismo tradicional, típico da
burguesia udenista brasileira, para um progressivo engajamento social,
não através especificamente de leituras, mas sobretudo
pelo impacto da realidade, pela necessidade de optar, dia a dia,
face a determinados acontecimentos. Isso veio se processando desde
64.
Era um trabalho aberto porque fui jornalista e depois parlamentar
em um Congresso que estava legal. Os contatos com o trabalho clandestino
eram esporádicos e não institucionalizados. E eram
sobretudo contatos de apoio e de troca de impressões. Era
também um trabalho ativo e extremamente absorvente em que
as horas eram poucas para se resolver tudo. Quando se sai do país,
quando saí, passei para um novo tipo de trabalho. Primeiro
o aprendizado. Depois um trabalho de reflexão e finalmente
um intenso trabalho de discussão com os grupos clandestinos.
Um trabalho de penetração, no sentido de entendimento,
das propostas de cada um desses grupos. Ao mesmo tempo há
um outro trabalho, que parecia ser mais frustrante, o de funcionar
em sociedade onde não se tem participação nas
decisões. Funcionar como jornalista, por exemplo, no Chile,
onde funcionei relativamente pouco, na revista Mensaje , como comentarista
de assuntos latino-americanos. Passei portanto de uma relação
entre o que escrevia e uma prática social extremamente direta
para uma relação de observador. O que escrevia em
Mensaje tinha muito pouca influência na prática social
do país onde estava.
Há rupturas de pensamento e de classe. No exílio elas
se aguçam. Havia passado, desde 64, por um processo de desligamento
de minha própria classe. Havia abandonado, ou pensava que
havia abandonado, a classe dominante brasileira, para lutar pelos
direitos do povo brasileiro à sua libertação.
No exílio essa ruptura tornou-se muito mais ampla. Não
apenas objetivamente, pelo fato de não estar mais em contato
permanente com membros de minha classe, contato que eu tinha no
Brasil – relações diárias, sociais, de
trabalho -, mas sobretudo pelo fato de não ter mais o que
dizer a essas pessoas quando por acaso apareciam e resolviam cometer
um ato de benemerência e generosidade, procurando o velho
conhecido com o qual haviam trabalhado ou estudado... Alguns iam
ao Chile e procuravam manifestar o seu liberalismo – também
a sua coragem – batendo à porta de minha casa. Pouco
a pouco verifiquei que a ruptura de classe era muito mais profunda
do que eu havia imaginado, porque já era uma ruptura de linguagem.
Nós não mais falávamos a mesma linguagem. Não
tínhamos nenhum ponto de interesse comum. Não tínhamos
mais o “que tratar”...
Também o próprio processo chileno de luta de classes
influenciou essa ruptura. Na época em que cheguei ao Chile
já se notava um processo de confrontações bem
violento e muito claro. Essa confrontação obrigava
cada um a posicionar-se face a ela. Além disso o exilado
é um desclassado, hoje em dia. Ele perde a sua condição
de classe, deixa de ser o burguês, o intelectual, o estudante,
o operário – há pouco operários no exílio.
Passa a ser apenas um exilado, alguém que foi lançado
para o lado de fora. E é acolhido por motivos liberais. Isso
ou facilita a sua recuperação pela classe dominante
ou a identificação com os oprimidos.
Há na própria condição do exílio
um incentivo à introspecção e à reflexão.
A condição de exilado aguça o desejo de saber.
Porque, afinal, estávamos no Brasil numa luta muito intuitiva.
Ao se pagar o preço dessa luta através do exílio
é que se tem a oportunidade de saber, exatamente, porque
se lutava.
De andarilho ao exílio político
Sou um andarilho profissional. Sempre,
toda a vida, viajei. Desde os 18 anos de idade, trabalhando para
o Correio da Manhã, ando com uma mala às costas. Portanto
a minha capacidade de adaptação é provavelmente
maior do que aquela de quem sempre viveu no Brasil e que de repente
é expulso da vida política e obrigado a se adaptar
a um lugar diferente.
Tendo passado 12 anos ater permanente contato com culturas diferentes,
a andar de um lado a outro, primeiro no Egito, Suez, depois na Índia,
França, Estados Unidos, fui criando uma capacidade de adaptação
rápida. Sob esse ponto de vista o exílio não
foi um impacto, nem um grande progresso. Se bem que, no caso particular
do meu exílio, o país que mais contribuiu para mudar-me
foi aquele onde menos fiquei. Foi Cuba. Em Cuba tive a impressão
visual, e a vivência, do que é o socialismo e do que
é possível fazer num país socialista. Cuba
é Pernambuco com caráter. É isso: Pernambuco
com vergonha na cara, com um governo decente, com um povo que não
é explorado. E a potencialidade dessa transformação
é tão evidente que realmente transforma a pessoa.
Tudo aquilo que você pode ter imaginado lendo, lá você
pode ver na prática, e, portanto, numa opção
muito mais profunda.
Tenho impressão que aprendi duas vezes em minha vida. Primeiro
comecei a aprender com o golpe militar de 64. Comecei a aprender
realmente o que era o meu país, qual a cara verdadeira do
Brasil. Cara dura, violenta, sanguinária.
Depois, comecei a aprender em Cuba: a aprender que há possibilidades
de uma vida harmônica, sem as carências mais elementares
de comida, saúde, educação e a ver que um povo
subdesenvolvido pode criar uma vida assim.
Visão de fora; míope
e ocular
O fundamental é desenvolver
a sua visão de forma a ter maior clareza do Brasil. Muitas
das coisas que eram confusas ou que eram misturadas, que eram vistas
como se fossemos míopes sem os óculos, apenas em seus
contornos, no exílio se tornaram claras. Coloquei os óculos
durante o exílio e essa tal cara dura do Brasil tornou-se
muito nítida, com as suas rugas, com as suas cicatrizes.
A sociedade brasileira deixou de ser para mim uma negociação
entre as classes sociais. A clarificação do domínio
da burguesia brasileira sobre o aparelho de Estado e a implantação
de um modelo que no meu tempo de Brasil – 64 a 68 –
não me parecia ainda suficientemente claro, ainda não
era um modelo exclusivamente para os que têm saúde,
que têm educação, fez com que do exílio
começasse a ver melhor. Portanto, há uma evolução
entre o princípio do meu aprendizado no Brasil, em 64 –
talvez pudesse levar um pouco mais atrás esse aprendizado
e dizer que comecei a aprender o Brasil na grande seca de 1958,
no nordeste -, e o que sou em 1975. É uma evolução
no sentido de perceber com maior nitidez o que é realmente
a sociedade brasileira, quais os seus conflitos, os seus antagonismos
e quais as suas contradições irredutíveis e
as que não o são.
Samba, futebol e mulher
Não há a menor dúvida
que hoje me interesso menos por futebol do que antes, pois as oportunidades
de ver bom futebol ficaram mais limitadas. Samba não. Continuo
a gostar de samba igual. Continuo a vibrar com uma batucada, a gostar
de dançar samba, tudo isso. Se bem que as oportunidades são
evidentemente menores.
Quanto ao relacionamento com as mulheres, evidentemente mudou, mas
não sei se haverá mudado pelo exílio ou por
outra visão do papel da mulher. Hoje em dia não pretendo
mais, como pretendia tal qual qualquer brasileiro de 18 ou 20 anos
de idade, dormir com todas as mulheres do mundo, nem dormir com
todas as que fossem aparecendo pela frente. Evidente que continuo
a sentir atração pelo sexo oposto, mas apenas por
algumas das mulheres com quem tenho um contato mais profundo e que
me despertam para outro tipo de relacionamento que não é
o da posse física e brutal, relacionamento que é o
que aprendemos na sociedade brasileira. Terá sido o exílio
isso? Se estivesse no Brasil teria evoluído da mesma forma?
Acho que talvez sim.
Visões e preconceitos do brasileiro
Na medida em que tenho uma visão
mais clara sobre o Brasil devo ter também uma visão
do que é o brasileiro...mas é difícil conceitualizar
essa visão. Evidentemente tenho muitos preconceitos a respeito
de alguns tipos de brasileiros.
O brasileiro burguês: o que sofre de infantilismo gordo e
que só pensa na sua lancha, na sua praia, no seu espaço
lúdico conquistado por um apartamento maior ou por uma casa
de campo e busca a descoberta do desconhecido através da
maconha, ou do psicanalista, ou da missa negra. Esse me repugna.
Tenho uma visão preconceituosa de muitos estudantes que saíram
ou foram obrigados a sair, que se canibalizaram e não produziram
nada. Tenho também talvez uma visão idealizada do
que seja o proletariado brasileiro. Pelo fato de ser membro espúrio
da classe dominante brasileira, de viver num ambiente que afinal
é burguês, tenho evidentemente a tendência a
idealizar a classe operária, o que não corresponderá
à realidade vivida. Mas, se tudo isso é uma outra
visão de brasileiro, é difícil dizer. Odeio
a irresponsabilidade de muitos setores da burguesia brasileira,
inclusive dos que se chamam de revolucionários. Mas isso
já tinha antes. Talvez tenha me tornado mais severo no julgamento,
mais duro no afastamento quando me defronto com algumas dessas fraquezas.
Denuncio. Inclusive para poder ser mais severo comigo mesmo também.
Mas isso não é uma nova visão de mundo trazida
pelo exílio. Esse foi o meu processo de transformação
nesses anos de exílio...
Perspectivas do futuro no Brasil
Dada a estrutura de repressão
estabelecida no Brasil, dada a dificuldade na circulação
de idéias existente, um processo de luta revolucionária
será muito lento. É o problema do tempo histórico.
Por outro lado, o modelo de estrutura econômica que se montou
no Brasil é um modelo que é autodestruídor
e que já começa a entrar em crise. Dentro dessa crise
será necessário ao governo alargar a sua base social
para o resto da burguesia, que tem valores diferentes dos seus,
e a abertura eleitoral, a abertura à Geisel nesse sentido
é típica e é parecida com a abertura Caetano
aqui em Portugal. Isso tem limitações muito grandes,
mas ao mesmo tempo é fermentado por um processo de rebelião
das massas, processo esse que não pode deixar de influir
também no modelo político. Não apenas no modelo
político proposto pelos “civis”, que no caso
têm poucas possibilidades de exercerem ou formulares esse
modelo, pelo menos a curto prazo, mas também no modelo político
formulado pelos militares. Nesse ponto é importante estar
em Portugal hoje em dia. Há, me parece, um progressivo desencantamento
com a tecnocracia, com a industrialização nos moldes
em que foi posta no Brasil, com a sociedade de consumo que na verdade
não é para todos, que desperta aspirações
em todos mas que apenas é para 8 ou 10% da população,
e isso faz com que também entre os militares comecem a surgir
dúvidas. Ora, um sistema autocrático como o brasileiro
– baseado fundamentalmente no monopólio da violência
– não pode permitir o florescimento de dúvidas
entre os seus principais defensores, que são os militares.
Conflitos entre os militares são, portanto, permanentes,
impostos pela evolução do processo e quase que irresistíveis,
no sentido de que não podem ser parados. Na medida em que
esse conflito possa amadurecer e que a própria realidade
social brasileira vai agindo sobre ele, poderá então
haver um aceleramento da transformação social pelo
desligamento da lealdade para com o sistema de grupos militares
que buscam novas funções. País que não
pode fazer a bomba atômica e transporta-la tem que ter ou
um Exército repressor ou libertador, não há
outra solução. Aqui em Portugal estão procurando
fazer um Exército libertador. No Brasil o Exército
é repressor e vai continuar a sê-lo por muito tempo.
Mas tenderá a ter outra função libertadora,
me parece.
Por menos que se tenha aprendido no exílio, pó mais
fechado que seja o grupo de canibais no qual se possa ter vivido,
uma pessoa sempre aprende muito... muito do que não se aprende
no Brasil. Viu o mundo, viu outras realidades, outras lutas, leu,
alguns com maior proveito, outros com menos, mas a maior parte dessas
pessoas terá uma grande ansiedade em ser útil, em
participar no processo brasileiro e em ter uma participação
em nível superior.
Há um outro fenômeno do exílio que é
um terrível parasitismo do exilado, um lumperanismo nascido
do costume do “descolar” político ... Esses não
terão inserção nem no Brasil me, e, lugar nenhum.
Portanto, devem ser considerados como “vítimas do processo”.
Tão vítimas do processo quanto o foram Marighela e
Lamarca, mas, ao contrário deles, estão mortos para
a revolução, para a vida do país e para si
mesmos.
Os outros não. Terão uma contribuição
a dar, enriquecendo a luta brasileira desde que tenham a humildade
suficiente, quando voltarem, para perceberem que a luta desenvolveu-se
sem eles e que o comando dessa luta provavelmente não lhes
será oferecido numa bandeja de prata. Poderão até
voltar nos braços do povo, mas esses braços serão
de acolhida e não braços que os levantem como estandartes.
Marcio
Moreira Alves
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