| Discurso
pronunciado em 2 de setembro de 1968
Sr.Presidente, Srs. Deputados,
Todos reconhecem ou dizem reconhecer que a maioria das forças armadas
não compactua com a cúpula militarista que perpetra violências
e mantém este país sob regime de opressão. Creio
ter chegado, após os acontecimentos de Brasília, o grande
momento da união pela democracia. Este é também o
momento do boicote. As mães brasileiras já se manifestaram.
Todas as classes sociais clamam por este repúdio à polícia.
No entanto, isto não basta. É preciso que se estabeleça,
sobretudo por parte das mulheres, como já começou a se estabelecer
nesta Casa, por parte das mulheres parlamentares da ARENA, o boicote ao
militarismo. Vem aí o 7 de setembro. As cúpulas militaristas
procuram explorar o sentimento profundo de patriotismo do povo e pedirão
aos colégios que desfilem junto com os algozes dos estudantes.
Seria necessário que cada pai, cada mãe , se compenetrasse
de que a presença dos seus filhos nesse desfile é o auxílio
aos carrascos que os espancam e os metralham nas ruas. Portanto, que cada
um boicote esse desfile. Esse boicote pode passar também, sempre
falando de mulheres, às moças. Aquelas que dançam
com cadetes e namoram jovens oficiais. Seria preciso fazer hoje, no Brasil,
que as mulheres de 1968 repetissem as paulistas da Guerra dos Emboabas
e recusassem a entrada à porta de sua casa àqueles que vilipendiam-nas.
Recusassem aceitar aqueles que silenciam e, portanto, se acumpliciam.
Discordar em silêncio pouco adianta. Necessário se torna
agir contra os que abusam das forças armadas, falando e agindo
em seu nome. Creia-me Sr. Presidente, que é possível resolver
esta farsa, esta democratura, este falso impedimento pelo boicote. Enquanto
não se pronunciarem os silenciosos, todo e qualquer contato entre
os civis e militares deve cessar, porque só assim conseguiremos
fazer com que este país volte à democracia. Só assim
conseguiremos fazer com que os silenciosos que não compactuam com
os desmandos de seus chefes, sigam o magnífico exemplo dos 14 oficiais
de Crateús que tiveram a coragem e a hombridade de, publicamente,
se manifestarem contra um ato ilegal e arbitrário dos seus superiores.
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